educação, Entrelinhas, ideologia, manifestações, movimentos sociais, política

Braços do Estado: policiais e… professores? Reflexão sobre o Dia do Professor

Charge do Latuff

Por favor, aguarde até o final do texto antes de pensar em trucidar o escritor! Embora eu vá levantar algumas críticas à profissão, afirmo que também sou professor e estou defendendo a categoria. Vamos, então, às razões dessa ressalva!

Acessando as redes sociais durante o Dia do Professor, encontrei uma contradição gritante. De um lado, felicitações de alunos (atuais e anteriores), várias mensagens alardeando a importância da nossa categoria, as relações de carinho e afeto e a beleza das marchas em defesa da educação que ocorreram por todo o país (embora a mídia só tenha relatado vandalismo).  Por outro, uma categoria vilipendiada que sofre com salários indignos, carreiras desestimulantes, péssimas condições de trabalho, assédio moral e adoecimento entre outros tantos problemas. Não bastassem essas questões, acrescentemos as agressões desferidas pela Polícia Militar contra os professores durante as manifestações de outubro em vários estados que resultaram no “Foi mal, fessor!!!

Muitos de nós temos reclamado da PM e acusado a instituição e os elementos que a integram de braço estatal. Será que os professores somos diferentes? Não somos, nós também, um braço do Estado? Uma análise que pode ser feita é a de que efetuamos o mesmo serviço, embora de formas diferentes. Educação (professores) e segurança (PM e civil) servem ao enquadramento do indivíduo à sociedade ordeira (Sem vandalismo! – Não agüento mais ouvir isso!). Para criar um quadro chocante, é possível dizer que a PM entra para ajustar aqueles que os professores não foram capazes de enquadrar. (Lembro aqui o acerto de que qualquer possibilidade de destrato ao articulista fica para após o término do texto!).

Sim, os educadores enquadramos as pessoas desde sua tenra infância aos interesses da sociedade que, em nosso caso, são equivalentes aos ideários do capitalismo e do mercado. Preparamos o indivíduo para o vestibular, a profissão, o mercado de trabalho e… achamos isso o máximo! Sem perceber, nos esforçamos cotidianamente para instilar naqueles que nos cercam, a ideologia burguesa do enquadramento profissional como forma de ser bem sucedido. Isso significa, em outras palavras, ser um indivíduo que se insere no mercado com capacidade de consumir os bens disponíveis a partir de seu trabalho. Lindo, não é? Sendo este o objetivo da educação, chego a duvidar das razões que me levaram a escrever este texto.

Mas é aqui que deixamos de cumprir nosso papel como educadores!  Esquecemos que educar é mais do que fornecer os elementos que compõem a matéria que nos cabe ensinar em razão de nossa formação. O sistema educacional está aí para o enquadramento, sim! Paulo Freire afirma isso quando diz que “Seria uma atitude muito ingênua esperar que as classes dominantes desenvolvessem uma forma de educação que permitisse às classes dominadas perceberem as injustiças sociais de forma crítica”.

Então, aqueles de nós que quisermos de fato nos posicionar como educadores, segundo a visão de Paulo Freire, devemos buscar mecanismos que nos permitam, mesmo dentro do modelo de educação estabelecido, subverter a ordem, transformar a sociedade em algo mais igualitário e justo. Ser professor sob a concepção da educação libertadora significa instituir uma prática de atuação “que faça da opressão e de suas causas objeto de reflexão dos oprimidos, de que resultará o seu engajamento necessário na luta por sua libertação”.

O braço truculento do Estado de que tanto reclamamos pode ser, sob certa ótica, nossa culpa, afinal, quando “a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é ser o opressor”. Portanto, não basta que apresentemos os conteúdos  de nossas disciplinas com qualidade e formemos nossos alunos para a vida, entendida como mercado de trabalho. Precisamos em sala de aula utilizar nossos conhecimentos e avançar no rumo da transformação social. Devemos usar os espaços existentes para além da instituição escolar. Atos e manifestações são importantes, pois rompem com a barreira do sistema, transgridem a ordem instituída, fazem ver os grilhões que nos prendem, revelam ideologias. Em suma, se os professores não quisermos ser apenas um braço opressor do estado, adotemos uma prática educacional emancipatória, libertadora, que construa professores e alunos e, portanto, toda a sociedade em sujeitos críticos, reflexivos, capazes de transformar sua realidade em uma vida que mereça ser vivida.

Espero que o texto seja suficientemente claro para resguardar minha integridade física. Até o próximo texto!

PS: Todas as frases entre aspas no texto são de Paulo Freire.

Publicado originalmente no jornal Tribuna Amapaense, Nº 370, 19 de outubro de 2013.

Outros textos de Arley Costa podem ser lidos em https://arleycosta.wordpress.com/entrelinhas/

Padrão

2 comentários sobre “Braços do Estado: policiais e… professores? Reflexão sobre o Dia do Professor

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s