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“Foi mal, fessor!!!” – Homenagem ao dia do professor

Charge do Aroeira

A foto de um policial militar segurando um cassetete quebrado, uma tonfa no jargão militar, ladeado da expressão “Foi mal, fessor!!!” correu as redes sociais nos últimos dias. A imagem possui clara relação com os enfrentamentos ocorridos no Rio de Janeiro e faz alusão ao fato de que o instrumento teria sido quebrado ao ser usado contra o corpo de um professor que estava nas ruas, como manifestante, lutando por seus direitos.

Há alegações de montagem e de que o PM não efetivara a postagem, além de outras afirmações do mesmo gênero. O caso, entretanto, não é sobre a veracidade ou não do material. O que importa é que frases equivalentes a essa estão sendo ditas dentro dos quartéis da Polícia Militar. Após os atos, nas reuniões informais, os PM estão se vangloriando da forma como encerraram as manifestações e como fizeram isto ou aquilo com este ou aquele manifestante. Qualquer um que já participou de uma partida de esporte coletivo sabe o que isso significa. Encerrado o jogo, cada um fala o que fez e como fez, exaltando suas próprias peripécias e as dos colegas do time. Exatamente por conta dessa situação é que, por ora, a questão a ser abordada é: Quais as razões para que os militares estejam ridicularizando uma agressão contra um trabalhador que, de tão intensa, chega ao ponto de quebrar um cassetete?

Primeiro, há um histórico enorme de confrontos da PM com pessoas excluídas que, por não terem como bradar seu infortúnio, são consideradas invisíveis pela sociedade. Sob o discurso de que toda ação em área de pobreza é contra a criminalidade, nada do que lá se faz causa impacto significativo na sociedade. Tudo acaba sendo permitido e fechamos os olhos para o fato de que a maioria absoluta das pessoas que lá estão são pessoas que seguem com suas vidas dentro da legalidade, mesmo com rendas muito abaixo do suficiente para viver condignamente. Assim, a agressão assume uma capa de normalidade, de forma que os próprios policiais não conseguem enxergar que rompem com direitos básicos do cidadão. Claro que é difícil para quem trabalha sob o risco de ter uma arma apontada para si ter clareza de tais sutilezas. Muitos de nós, se lá trabalhássemos, seríamos também pragmáticos e assumiríamos, por definição, que a agressão pode vir de qualquer um e, só depois, nos daríamos o luxo de discernir o joio do trigo.

Ultimamente, com manifestações eclodindo de todos os lados, a PM foi exigida a lidar com outro tipo de público e não se deu conta da diferença. De saída, bateu nos bombeiros, também militares, em episódio recente. Nas imensas manifestações de junho, onde pessoas de várias configurações se fizeram presentes, a agressão militar ocorreu, mas foi minimizada pela mídia que fazia questão de frisar que os confrontos se dirigiam exclusivamente aos vândalos. Entretanto, qualquer um que tenha participado de uma manifestação sentiu na própria pele que não é bem assim.

Atualmente, os aparatos militares estão voltados para os professores. Como os profissionais de educação, segurança e saúde são os mais mal remunerados da esfera pública, temos um servidor público da segurança mal remunerado aplicando todo o aparato repressor do Estado contra um servidor público da educação que ganha tão mal como ele. Os dois vivem a mesma realidade. Com a remuneração paga a um PM praticamente inexiste a possibilidade de seus filhos estarem em colégios particulares. Portanto, explorados pelo sistema, pais policiais e professores que se conhecem podem ter se encontrado durante a manifestação. E, tanto na cabeça de uns quanto na de outros deve ter passado a pergunta: Se nós sofremos juntos, por que não lutamos juntos?

A questão é que os governos de todas as esferas têm arrochado o confronto. De olho na Copa e Olimpíadas e em manter uma imagem livre de críticas, os políticos para atender os interesses do capital e sua própria elegibilidade têm criminalizado qualquer movimento reivindicatório. A intenção é massacrar para que não haja resquícios de levante nesse país e assegurar que o país continue gerando lucro àqueles que investem na ciranda financeira enquanto a população cada vez mais vive na miséria.

O problema é que quanto mais a violência estatal se institui com a anuência da mídia, mais a união dos explorados está ganhando força. Os professores estão ganhando mais e mais adeptos. As marchas de outubro têm obtido número de participantes impressionante. Diferente das manifestações de junho, onde se questionava tudo e todos sem um foco definido, as marchas de outubro em apoio aos professores são significativas, pois mostra que pessoas estão se agregando à luta em defesa de um objetivo claro. Apesar do número de pessoas ser menor que nos atos de junho, as manifestações dos professores impressionam mais. As pessoas estão agregadas em torno de objetivos claros e definidos e participam de forma muito mais consciente e politizada! E estão vindo às ruas, mesmo com a crítica da mídia ocorrendo de uma forma muito mais mordaz e feroz contra os movimentos sociais.

A luta dos professores é por defesa da educação pública, o que se consegue defendendo melhores salários, condições de trabalho e infraestrutura, além de mais recursos para a área. Por todo o país, no dia do professor, 15 de outubro, haverá atos em defesa da educação. Seja você professor ou não, vá às ruas, apoie a defesa da educação e dos educadores. Aqueles que forem para a rua estarão dando ao Brasil e ao mundo uma aula de consciência, luta de classes e defesa de direitos! Será uma aula para ficar na história, uma daquela que os alunos hão de exclamar: “Valeu, professor!!!”

Publicado originalmente no jornal Tribuna Amapaense, Nº 369, 12 de outubro de 2013.

Outros textos de Arley Costa podem ser lidos em https://arleycosta.wordpress.com/entrelinhas/

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