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Não quero ser cientista! Parte 2

Em “Não quero ser cientista!“, abordamos a regulamentação da profissão de cientista. O tema ganhou destaque nas redes sociais e na mídia a partir dos textos “Você quer mesmo ser cientista?” e “Você quer mesmo ser cientista? Parte 2: uma proposta prática“, ambos de autoria de Suzana Herculano-Houzel, neurocientista da Universidade Federal do Rio de Janeiro. As alegações da pesquisadora encontraram grande acolhida entre internautas e pós-graduandos, mas têm sofrido forte resistência por parte de várias pessoas e entidades, entre elas a Associação Nacional dos Pós-Graduandos.  É importante frisar que a neurocientista acerta de forma brilhante ao caracterizar o problema enfrentado pelos pós-graduandos, entretanto, as soluções que aponta não resolvem as dificuldades elencadas e ainda acrescentam novas.

Como ponto de partida, deve ficar claro que sob a proposta defendida os atuais pós-graduandos não serão contratados como cientistas, embora em “Você quer mesmo ser cientista? Parte 2: uma proposta prática” isso pareça ser sugerido. A relação é inversa. Apenas os que estiverem na condição de cientista, contratados pelos laboratórios, cursarão pós-graduação, pois esta seria reservada “àqueles jovens pesquisadores que demonstrarem capacidade de inovação e liderança, ao invés de ser usada como a boia de salvação (…) para quem quer seguir carreira na ciência”. Portanto, seria necessário conseguir inicialmente o emprego de cientista para depois cursar a pós-graduação.

Mesmo que essa lógica seja implantada, o interesse das pessoas em cursar a pós como forma de conseguir qualificação e aumentar sua empregabilidade continuará. Portanto, o dilema atualmente existente, de pessoas não empregadas cursando mestrado e doutorado sem um trabalho para além dos 30 anos, persistirá. Ou as pessoas serão proibidas de cursar pós-graduação caso não estejam empregadas? Se a resposta for afirmativa, a sugestão de Suzana pode até resolver os dilemas dos pós-graduandos, mas criará um problema sério, pois significará impedir que as pessoas busquem se qualificar para aumentar sua empregabilidade.
Caso a resposta seja negativa, haverá redução do número de oferta de pós-graduação. Uma vez que os laboratórios façam as primeiras contratações, novos cientistas serão contratados apenas quando os que estiverem desenvolvendo suas atividades forem dispensados. De um lado, menos provável, esta política pode gerar alta rotatividade e o problema da empregabilidade dos interessados em viver de ciência permanecerá em vigor. De outro, na medida em que bons pesquisadores se estabeleçam nos laboratórios, haverá reduzida disponibilidade de cargos de cientista e, assim, pouca oportunidade de acesso ao emprego e, consequentemente, à pós-graduação.

Admitir que estudos pós-graduados sejam ofertados apenas àqueles empregados como cientistas resulta em menor demanda por pós-graduação. Sob esta ótica, haverá uma acentuação da concentração dos programas no centro-sul do país, dificultando a formação pós-graduada para aqueles que não residem nestas localidades. Considerando que grande parte das pesquisas no Brasil é conduzida nas universidades, isso significa estabelecer diferentes estilos de formação nas Instituições Federais de Ensino Superior. Aquelas vinculadas aos núcleos de pesquisa e programas de pós-graduação mais consolidados ofereceriam uma formação que envolveria a relação do acadêmico com a pesquisa. Aquelas que não se encontrem nesta situação seriam instituições tão somente de ensino, o que fere de morte o modelo humboldtiano de universidade que o sistema federal de ensino superior sempre estabeleceu e que gera uma graduação extremamente forte internacionalmente, segundo análise da própria Suzana.

A universidade federal brasileira é humboldtiana e, portanto, se sustenta sobre o tripé ensino, pesquisa e extensão. Caso seja adotada a sugestão de Suzana e se rompa com o modelo universitário vigente no país, isso resultaria no enfraquecimento da graduação e, em cascata da pós-graduação. Como alternativa, é possível criar novos órgãos de pesquisa no país e contratar cientistas, sem que isso signifique abandonar o desenvolvimento de pesquisa nas universidades. Isso ampliaria o número de postos para cientistas disponíveis no Brasil que hoje se restringe aos poucos institutos de pesquisa e às universidades.

As dificuldades dos pós-graduandos existem e soluções precisam ser encontradas. A proposta de Suzana, embora bem recebida, traz ainda outros problemas para além do desmonte da universidade federal e da restrição e concentração da oferta de pós-graduação, mas isso fica para o próximo texto.

Sequência deste material: Não quero ser cientista (Parte 1Parte 2Parte 3)

Publicado originalmente no jornal Tribuna Amapaense, Nº 365, 14 de setembro de 2013.

Outros textos de Arley Costa podem ser lidos em https://arleycosta.wordpress.com/entrelinhas/

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