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Mídia NINJA

Imagens da destruição que vem ocorrendo associada às manifestações recentes são a tônica da mídia hegemônica nacional. A lógica da cobertura é mostrar manifestantes em marcha pacífica e, sem indicar em profundidade as causas das reivindicações, enfatizar a destruição que se segue. Pneus queimados, empresas saqueadas, patrimônio público e privado depredados. É um verdadeiro cenário de guerra que intimida as pessoas. Mas, algo se destaca para quem assiste aos noticiários de forma mais atenta. As imagens das manifestações são feitas de longe, muitas vezes de helicópteros, ou registradas por meio de celulares. Por que isto está ocorrendo?

Fato recente pode auxiliar a elucidar a questão. Durante a cobertura das manifestações que se seguiram à chegada do Papa Francisco, o fotógrafo japonês Yasuyoshi Chiba, funcionário da Agência France Presse (AFP), sofreu um acidente. As imagens mostravam o fotógrafo com a cabeça ensanguentada e a mídia tradicional prontamente “informou” que ele havia sido atingido pelo coquetel molotov de “vândalos”. Entretanto, o próprio Yasuyoshi afirmou ter sido golpeado por um policial. Nas palavras do japonês: ”Vi um manifestante cair no chão. Os policiais o agarraram e o levaram. Fotografava a cena quando fui bruscamente empurrado por outros policiais. Então levantei os braços com minha câmera para mostrar que era fotógrafo e que tinha intenções pacíficas, mas um policial de uniforme e escudo me acertou a cabeça com o cassetete”.

O fato é um exemplo claro de como a mídia tradicional visa criminalizar os movimentos insurgentes. Não fosse o relato do fotógrafo e a cobertura da mídia independente, os manifestantes seriam responsabilizados por mais um crime. O “erro” poderia ser creditado à pressa em produzir notícias. Entretanto, a insistência em desmoralizar e criminalizar os movimentos sociais com distorção dos “fatos” fica cada vez mais evidente e tem gerado a ojeriza dos manifestantes e de uma parcela da população aos poderosos canais de comunicação. Por isso, repórteres famosos têm sido hostilizados ao tentar cobrir os movimentos e as imagens da grande mídia que são produzidas de longe, onde não há contato com manifestantes.

Nestes tempos de comunicação em tempo real, onde internet e imagens de celulares se encontram, a informação aparece por fora dos meios usuais. Há uma mídia informal cobrindo as manifestações. Qualquer pessoa com um celular na mão e a vontade de relatar o que está ocorrendo vira repórter. Os acontecimentos são transmitidos ao vivo e sem edições por meio da internet. Como os canais tradicionais estão sendo hostilizados em virtude das distorções com que tem veiculado as manifestações, os grupos independentes passaram a ser a principal fonte de informação direta dos protestos.

ninjaAs informações brutas e não editadas da mídia livre têm oferecido um olhar que escapa das coberturas rigidamente direcionadas dos grandes meios de comunicação. Os relatos têm mostrado os vieses presentes no discurso da mídia tradicional, como a tentativa de criminalização dos movimentos sociais, e são amplamente vistos, retransmitidos e comentados nas redes sociais. Dentre os vários grupos de mídia livre que têm surgido e feito a cobertura das manifestações, está o “Narrativas Independentes, Jornalismo e Ação” (NINJA*) que é vinculado aos ativistas culturais de Fora do Eixo.

A cobertura NINJA, tendo como paradigma principal a “mídia sem filtro”, disponibiliza a informação sem edição, o que permite uma leitura mais direta do fato e tem auxiliado a desmascarar a manipulação e o jogo de interesses impetrado pela mídia tradicional. Esta outra visão trazida ao processo gera um incômodo entre os donos do poder. Mídias livres e alternativas devem se preparar para um embate forte, vigoroso e desleal. Tentativas de descrédito, desmoralização e criminalização com certeza estão no horizonte da mídia independente. De fato, os ataques já começaram! Repórteres da Mídia NINJA, que mostravam policiais infiltrados entre os manifestantes para incitar à violência, foram detidos sob a falsa alegação de carregar vários coquetéis molotov. Os rapazes, no entanto, não estavam com mochilas nem sacolas para carregar este material. A captura do NINJA foi transmitida por outros celulares da mídia independente, desmascarando a farsa da polícia do RJ e da mídia, gerando outra manifestação, desta vez de apoio aos repórteres ninjas encarcerados.

Embora a aproximação do NINJA com um partido político gere algum receio e a grande mídia continue a centralizar as atenções da população, o acompanhamento das coberturas da mídia independente, em especial da NINJA, tem crescido em audiência, inclusive entre autoridades e redações de jornais. A mídia tradicional e os poderes instituídos já se deram conta de que há um novo e importante mecanismo de informação. Ainda não sabem como lidar com ele e, por enquanto, o mecanismo de enfrentamento será destruir a mídia livre. Por isso, mais que nunca é importante estabelecer um marco regulatório que fortaleça alternativas de comunicação e que não esteja atrelado aos grandes grupos econômicos. O Projeto da Mídia Democrática é um destes mecanismos e precisa de nosso apoio. A luta será árdua. Que ao nosso lado estejam os guerreiros NINJA!

*Mídia NINJA pode ser acessada em http://www.facebook.com/midiaNINJA e http://twitter.com/MidiaNINJA.

Publicado originalmente no jornal Tribuna Amapaense, Nº 358, 27 de julho de 2013.

Outros textos de Arley Costa podem ser lidos em https://arleycosta.wordpress.com/entrelinhas/

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