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Dia do trabalhador, festa, luto ou luta?

O despertador toca e incomoda o sono. Leonardo rola na cama, até que o grasnar do aparelho ganha a luta. Abre os olhos, percebe a moleza do corpo, estica-se, espreguiça-se. Sente musculatura e articulações se reposicionando. O sono começa a esvair. Senta na cama, boceja e, por fim, levanta. Na labuta desde criança, decidira ir à festa do 1º de maio, dia do trabalhador.

Haverá cantores e sorteio de brindes. Até um carro está no rol dos prêmios. Este vai ser meu, pensa. Um banho e um café para despertar. Veste uma roupa confortável, afunda o boné na cabeça e sai. Viaja de ônibus e chega ao local ainda cedo. Pouco a pouco o espaço fica repleto. Começa o show. Os cantores se sucedem no palco em espetáculo de luz, cor e som. Durante o show acontecem os sorteios. O carro não veio, ficou com alguém de mais sorte. Os outros prêmios também lhe escaparam, mas o dia foi divertido. Retorna à casa modesta no subúrbio. Assiste no televisor, cujas prestações ainda estão por pagar, um programa. Pega o despertador, ajusta o horário para o dia seguinte e se entrega ao sono. Afinal, passado o dia do trabalhador, voltam os dias do trabalho! E tudo segue como antes!

Todos nós, tendo participado ou não das festas do dia do trabalhador, retornamos aos nossos dias de trabalho. Estes se sucedem ferreamente. Após os anos de formação, os quais são subtraídos a muitos de nós que acabam por encarar o mundo de trabalho sem qualquer qualificação, o trabalho se nos apresenta. É um elemento importante de nossas vidas. Vivemos única e exclusivamente para isso, alguns dizem. Quando pequenos somos formados para “o que vamos ser quando crescer”. E este “o que vamos ser” é justamente a profissão, o emprego. Nossa infância é ditada pelo trabalho vindouro, pela preparação a ele. Depois vem o trabalho propriamente dito. E este, conhecemos bem. Vivemo-lo intensamente a maior parte de nossas vidas. Exaurimos nesse período nossa juventude e vigor físico. Depois, envelhecidos e considerados inaptos para a empregabilidade, descobrimos que não fomos preparados para o tempo livre. Não sabemos o que fazer com o ócio! Quando adultos, estávamos trabalhando, quando criança, estávamos nos preparando para o trabalho e, simplesmente, não aprendemos isso em momento algum de nossa vida.

Não percebemos, independente se somos daqueles que sentem mais ou menos prazer com o trabalho que fazemos, que ao centrarmos tanto esforço no trabalho, muitas vezes esquecemos de nós e dos que nos são próximos. Não entendemos a lógica posta. Não enxergamos que a maioria de nós é explorada e expropriada, enquanto alguns se locupletam com o que há de melhor. Esquecemos, não vemos, não percebemos porque vivemos alheios a tudo. Estamos tão imersos, desde crianças, com a perspectiva do trabalho, que não somos capazes de analisar o que nos circunda. Perdemos a chance de identificar que vemos as sombras do que realmente ocorre. Sombras repletas de ideologias. Sombras que transformam o trabalho em essência e o 1º de maio em mera festa.

O dia do trabalhador virou festa, mas nasceu como símbolo de reivindicação. Criado pela Segunda Internacional Socialista em 1889, a data remete a uma greve geral ocorrida nos Estados Unidos em 1º de maio de 1886. A manifestação defendia a redução da carga horária de 13 para 8 horas diárias e terminou em confronto com a morte de trabalhadores no dia 1º e nos dias seguintes. A data é, portanto, uma homenagem, a história da luta dos trabalhadores por melhores condições de trabalho.

É claro que pode e deve haver festas. Elas nos fazem bem e tornam a vida mais leve. Mas é preciso rememorar a razão de ser do dia do trabalhador e resgatar a história de luta. Há muito que reivindicar, confrontar e conquistar. Os trabalhadores estão cansados de pagar os custos das crises do capitalismo e o mundo está explodindo em reivindicações, basta olhar Grécia, Itália, Espanha, Chile, Turquia, Índia, China e tantos outros países. No Brasil não podemos aceitar o Acordo Coletivo Especial (ACE) que elimina vários direitos conquistados. Devemos nos unir e lutar pela anulação da Reforma da Previdência de 2003, pelo fim do fator previdenciário e das privatizações entre tantas outras coisas. No Amapá, há também reivindicações. Os professores do estado, por exemplo, reivindicam a revogação da lei que trata da incorporação da regência de classe e a reabertura das negociações. Reunidos do dia do trabalhador, decidiram pela greve a partir de sete de maio e colocaram a decisão na mão do governador. Pelo visto, o 1º de maio é dia de festa, luto e luta!

Publicado originalmente no jornal Tribuna Amapaense, nº 356, 04 de maio de 2013.

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