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Dança das cadeiras

Gadgets diversos.

Cadeiras dispostas em círculo com os assentos voltados para o exterior. A música propalada pelas caixas de som enche o ar. Em volta do círculo, crianças agitadas contornam o conjunto de cadeiras mantendo as mãos atrás do próprio corpo. O frenesi é evidente. Estão tensas, mas os sorrisos explodem nos rostos. Enquanto correm, anseiam pelos assentos vazios. A música para. Todas buscam a cadeira mais próxima e largam o corpo buscando ocupá-la. Os olhares passeiam ao redor e encontram uma das crianças em pé. Esta não conseguiu um assento, o número de cadeiras era menor que o de crianças. A que ficou em pé sai do jogo. Curiosamente, por não ter conseguido sentar, leva consigo uma das cadeiras. O jogo recomeça e, novamente, há mais crianças que cadeiras. Uma após outra, aquelas que não conseguem sentar são retiradas da dança das cadeiras, até que a que sentou na última cadeira disponível, explode em alegria. Levanta, salta, grita, festeja. É a campeã!

Os celulares atuais duram cerca de um ano e, muitas vezes antes disso, começam a apresentar defeitos ou a ficar ultrapassados tecnologicamente. Apesar dos custos envolvidos, os usuários nos prontificamos a comprar outro aparelho em plena funcionalidade ou simplesmente um mais moderno. A substituição do produto, muitas vezes, em perfeito estado, mas tecnologicamente defasado e, portanto, descartável, é uma constante nos tempos hodiernos. As empresas se utilizam deste processo como uma estratégia de produção. Conhecida como obsolescência programada, esta estratégia envolve planejar uma redução da vida útil do aparelho, ou seja, o empresário-produtor deliberadamente desenvolve ou fabrica um produto que se tornará obsoleto ou não funcional dentro de certo prazo.
A obsolescência programada não é uma novidade. Em 1911 já havia tecnologia disponível para que as lâmpadas durassem 2500 horas, hoje as lâmpadas incandescentes, que mantém o mesmo princípio de funcionamento daquela época, duram apenas 1000 horas. A tecnologia avançou, os produtos ficaram mais sofisticados e as lâmpadas duravam no passado duas vezes e meia mais do que duram hoje. Empresários utilizam esta estratégia porque ela tem impactos importantes para as organizações. Ao induzir o consumidor a adquirir a nova geração daquele mesmo produto, os empresários continuam produzindo, vendendo e aumentando seus ganhos.
Utilizada em grande parte dos produtos que consumimos hoje, a obsolescência programada é visualizada facilmente, em especial, nos gadgets tecnológicos. Celulares, computadores, tablets, dispositivos de áudio e vídeo são produzidos e jogados fora em uma velocidade absolutamente estonteante. Antes mesmo que o usuário tenha tempo de explorar todos os recursos e funcionalidades do seu aparelho, um novo está disponível. A lógica do capital e do consumo valorizam o novo produto e o colocam na mídia, destacam seus atributos e novas funcionalidades e anunciam ser ele o instrumento que conduz à felicidade. Olhamos para nosso aparelho recém-adquirido com desdém. Ficamos a desejar a felicidade anunciada no produto ora lançado, arvoramo-nos além de nossas posses em busca de comprá-lo para, em seguida, descobrir que a felicidade tão almejada, furtivamente nos escapou e já está em um novo produto alardeado de forma ainda mais convincente.
A obsolescência é uma política que não vale apenas para produtos considerados simples, de baixo custo e facilmente substituíveis. Carros seguem a mesma lógica. Henry Ford percebeu que teria mais lucros se os carros que produzia não fossem tão duráveis. Alterou sua matriz de produção e nisso foi seguido por todas as empresas do setor. Os carros que, em seus anos iniciais, eram resistentes por décadas, hoje apresentam vida útil reduzida. Chegam mesmo a serem vendidos com a informação de que é melhor trocar após dois anos, pois começarão a apresentar problemas de manutenção e, assim, a aquisição de um modelo novo torna-se atraente. Atentemos para o fato de que estamos falando de produtos que valem no mínimo trinta mil reais! Ou seja, de um produto cuja aquisição consumiria 50 meses da remuneração de um trabalhador que receba salário mínimo. Mais de quatro anos da integralidade do salário em um carro para ele não estar mais em condições perfeitas de uso na metade deste tempo!
Há algo de muito errado nesta lógica. Devemos mudar nossos hábitos e nossa matriz de consumo. Não é possível continuarmos correndo atrás dos espaços vagos que se modificam a cada nova rodada. Chega de buscarmos uma felicidade jamais alcançada nesta dança de cadeiras. Não é preciso saber quem será aquele a comemorar a vitória de estar na última cadeira, para entendermos que a maioria estará de pé, triste e olhando para o vencedor sorridente. O mais curioso é imaginar que o real vitorioso não seja o que está sentado na última cadeira, mas aquele que, organizando a obsolescência programada, controla a dança das cadeiras de sua poltrona confortabilíssima de última geração.

Publicado originalmente no jornal Tribuna Amapaense, nº 358, 18 de maio.

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2 comentários sobre “Dança das cadeiras

  1. Maria Célia disse:

    Muito boa critica ao sistema frenético de consumo
    Adorei teacher. Essa brincadeira que ilustra a ideia proposta, é por sinal muito usada e de forma animosa. Porem a ideologia contida é de fato cruel. Tive a oportunidade de vivencia la no sei oposto. Onde ao invés de tirar as pessoas, tira se apenas as cadeiras e as pessoas que podem ser crianças ou… São preservadas. Fica interessante!

    • A briga deve ficar mais intensa no modelo que propões, Célia. E se olharmos com calma é o que de fato ocorre. Ficamos todos a disputar as poucas e raras opções, sempre achando que somos nós os culpados por não termos conseguido alcançar o objetivo. Sociedade construída para gerar frustração e desencanto. Abraço

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