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Déjà vu?

Roda de amigos. Conversa correndo solta, risos em profusão e diversão que avança pela noite. Fala-se sobre tudo e nada. Importam a companhia, a alegria, o celebrar a vida. Em certo momento um dos amigos fala algo e leva o copo à boca enquanto faz um gesto peculiar. Você responde ao comentário e tem a sensação de já ter dito aquilo e naquela circunstância. Mais curioso ainda, você sabe, simplesmente sabe, quem será o próximo a falar e o que ele dirá. Eis que tudo se sucede como o previsto. A cabeça dispara e você se pergunta: Eu já vivi isso? A sensação de já ter visto ou vivenciado algo antes de acontecer é denominado “déjà vu”, expressão francesa que significa literalmente “já visto”.

Escolas públicas em décadas passadas foram referência de formação dos estudantes brasileiros. Professores bem pagos, volume de investimento condizente e infraestrutura adequada eram a regra. Enquanto a educação pública atendia um grupo reduzido de privilegiados e não havia massa crítica no país, ela foi de alta qualidade. Porém, sendo a educação um mercado com potencial de movimentar recursos enormes, houve pressão para ampliar a base de pessoas atendidas e entregar à iniciativa privada parcela significativa desta população. Educação para todos é um princípio para aqueles que defendem uma sociedade mais justa e igualitária, mas sob os auspícios dos interesses do capital, o que se sucedeu foi a transformação da escola pública em um local que, apesar dos esforços de seus profissionais, passou a oferecer um simulacro de educação de qualidade.
Como isso ocorreu? Sob o discurso de educação para todos, o Estado decidiu passar os custos da formação básica para o cidadão e para isso realizou três grandes movimentos. Primeiro, sob o discurso de ampliação do acesso, aumentou o número de alunos nas escolas, sem o respectivo aumento do investimento e do número de profissionais. Segundo, mecanismos de suporte estatal, inclusive mudança da legislação, foram organizados para facilitar a criação e o fortalecimento de escolas particulares. Por fim, a remuneração dos profissionais foi achatada de forma vertiginosa.
Quais as consequências destes movimentos realizados pelo Estado? Com o primeiro, houve um sucateamento das instituições que, de uma hora para outra, ficaram lotadas e sem recursos para atender a nova e ampliada demanda. Com menos recursos houve o sucateamento da infraestrutura e de toda a capacidade de suporte da escola aos alunos. As salas ficaram superlotadas, os professores sobrecarregados, pois assumiram mais turmas, e a atenção dispensada por aluno não pôde ser mantida no mesmo nível. Impossível realizar um trabalho realmente significativo para todos os alunos quando o número destes está além da capacidade de qualquer ser humano. Nestas condições, aqueles com recursos, começaram a pensar em alternativas ao sistema educacional público.
O segundo movimento foi realizado para completar o primeiro e ofertar essa alternativa. Uma vez que a escola pública não mais funcionava como antes, era preciso oferecer àqueles com recursos uma alternativa minimamente compatível com o que se tinha anteriormente. A solução implantada pelo Estado foi organizar toda uma estrutura de suporte às escolas particulares enquanto se implodia a escola pública. Criaram-se, então, dois tipos de escolas, as privadas, onde deveriam estudar os filhos dos que pudessem pagar, e uma nova escola pública, sucateada, com mais alunos, menos recursos e sobrecarga de trabalho para os profissionais da educação, esta para aqueles menos afortunados economicamente.
Apesar de tudo isso, os melhores profissionais da educação ainda estavam na escola pública e assim eram reconhecidos pela população. Então, formata-se o terceiro movimento, mandar para as escolas privadas os bons professores que se mantinham na escola pública. O processo assumido foi o de achatar salários e desmontar as condições de trabalho para tornar a carreira da docência pouco atraente. Sob estas condições, muitos professores abandonaram a docência e buscaram outros trabalhos, complementaram o salário da esfera pública com aulas ministradas nas instituições particulares, ou migraram de vez para esta última.
Ah, é claro, você quer saber sobre o “déjà vu”. Bem, o “déjà vu” está muito presente entre aqueles que estudam a educação brasileira. Para estes é impossível não ver na atual história da universidade federal o que as escolas estaduais vivenciaram país afora décadas atrás. No próximo texto (https://arleycosta.wordpress.com/2013/03/17/sim-deja-vu/), a gente verifica este “déjà vu” que conecta as universidades federais de hoje com as escolas estaduais do passado. Então, até lá!
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