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A César o que é de César!

“UNIFAP promove maior concurso para professor da sua história” informa a página eletrônica da Universidade Federal do Amapá. Então, vivas à greve, aos sindicatos, ao movimento estudantil, à luta de docentes, técnicos e alunos que defendem a universidade pública, gratuita e de qualidade! Exaltar a greve? Insensatez!, pensarão alguns. Insanidade!, dirão muitos. Loucura!, bradará o vozerio rouco das ruas e dos corredores da universidade! Será mesmo que tal afirmação é um disparate? E se for, trataremos em desacreditá-la ou faremos como Erasmo de Roterdã e nos arvoraremos em exaltar um “Elogio da Loucura”?

Instituições federais por todo o Brasil realizarão concurso para ingresso de professores no início de 2013. A UNIFAP receberá, em fevereiro, 613 candidatos para disputar as 85 vagas disponíveis em várias áreas de conhecimento. Este é o maior concurso para docentes já realizado, conforme o Reitor. E estão previstas outras vagas ainda em 2013 e 2014, sendo 31 para Medicina agora em março. O volume de contratações destes concursos praticamente permitiria sanar a carência de professores dos cursos atualmente existentes na UNIFAP.  Permitiria… O tempo verbal é o futuro do pretérito e não o futuro do presente! Embora uma considerável redução do déficit seja alcançada, a atual distribuição de vagas não será suficiente para resolver as carências existentes, pois a administração optou por utilizar parte das vagas para abrir novos cursos. Isso significa que alunos e professores continuarão reclamando a insuficiência de docentes para o funcionamento dos cursos da UNIFAP, principalmente daqueles recém-criados.
Mas por que enaltecer à greve ou àqueles nela envolvidos direta ou indiretamente? Qual relação existe entre a greve, os concursos, a redução do déficit de professores e a criação de novos cursos? Projeto de lei sobre a abertura de novas vagas docentes para as instituições federais, originário da reivindicação de docentes, técnicos e alunos, dormitava entre gavetas e gabinetes há anos. A despeito dos gritos e clamores oriundos de várias fontes, inclusive da ANDIFES, associação dos reitores das universidades federais, o projeto era mantido inerte, pois a atual política do governo para as universidades federais visa ampliar o número de alunos sem aumentar o quantitativo de docentes ou o volume de recursos empregados. A greve docente de 2012 trouxe como reivindicações centrais a estruturação da carreira e a melhoria das precárias condições de trabalho, entre elas a elevada carga de atividades dos docentes que se intensificou a partir do REUNI, plano de reestruturação das universidades federais. Duas semanas após o início da paralisação, uma das primeiras ações do MEC para encerrar a greve foi se comprometer com o ANDES-SN, o sindicato dos professores das instituições de ensino superior, em desengavetar o projeto, aprová-lo em caráter emergencial e contratar cerca de 20.000 docentes, além de criar cargos comissionados e funções gratificadas para as instituições. Em suma, é em razão da greve que temos concursos para professores e criação de novos cursos nas universidades.
Localmente, nas discussões com a reitoria, os docentes, através do SINDUFAP (Sindicato dos Docentes da UNIFAP), e o movimento estudantil, antes mesmo da aprovação do projeto, reivindicavam uma distribuição das vagas entre os cursos existentes, baseada em um levantamento efetivo das carências. A administração se comprometeu com a reivindicação e o resultado se expressa em um concurso onde o rateio das vagas é mais equânime que em ocasiões anteriores. Entretanto, o compromisso de não abrir novos cursos até que as carências de docentes fossem sanadas foi esquecido. Apesar disto, outras conquistas nacionais e locais foram obtidas com a greve e serão abordadas em momento oportuno. O importante agora é lembrar que estas vitórias fortalecem as lutas e a greve, última alternativa dos trabalhadores, na defesa da universidade pública.
Em momentos como este, onde se vislumbra claramente que as lutas por uma sociedade mais justa e pelo bem coletivo são estratégias palpáveis e viáveis, temos a impressão de alcançar nossa Narragonien, a terra prometida dos insanos. Aqueles que padecem da demência de lutar pelo social, muitas vezes com ideias e posições que contrariam o senso comum e a ideologia do capital, não podem deixar ocorrer atos de adoxografia, ou seja, permitir que se elogiem de forma imerecida pessoas ou coisas. É preciso reivindicar as conquistas que se lhe pertencem, pois como afirma um adágio popular: “A César o que é de César!”. Tendo em mente estes malucos sonhadores, não vejo forma melhor de concluir este texto do que com a célebre frase da Loucura que encerra o livro de Roterdã: “E, por isso, sedes sãos, aplaudi, vivei, bebei, oh celebérrimos iniciados nos mistérios da Loucura”.

 

Arley José Silveira da Costa
Texto publicado no jornal Tribuna Amapaense (Ano VII, Nº 345, Macapá-AP, 16 a 22 de fevereiro de 2013) e disponibilizado em 22 de fevereiro de 2013 no site http://tribunaamapaense.blogspot.com.br/2013/02/entrelinhas-cesar-o-que-e-de-cesar.html.

Outros artigos da coluna podem ser acessados em Entrelinhas.

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