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Carnaval e diversidade de corpos suados

Corpos suados em movimentos rítmicos sob a cadência do samba que estronda e ecoa. Fantasias, adereços, carros alegóricos e a malemolência dos passistas deleitam os sentidos. A bateria dita o ritmo e os músculos retesados dos instrumentistas irrompem como magia sonora. A frente deles desfilam rainhas, convidadas pela diretoria, normalmente entre pessoas famosas, e madrinhas da bateria, escolhidas entre as mulheres da comunidade pelos próprios ritmistas. A festa do corpo traz ainda outros homens e mulheres em perfeição estética que desfilam inalcançáveis à grande maioria que os admira pelo vítreo brilho da telinha.
Síntese dos objetos de desejos, os corpos esculturais que povoam os sonhos de homens e mulheres parecem ser a antítese daqueles que denominamos pessoas com deficiência. Estas tentamos não perceber, seja na televisão ou nos espaços que ocupamos no dia-a-dia.  Alegamos não saber como nos relacionar com elas, pois são poucas. O censo do IBGE de 2000 nos contradiz e afirma que a cada oito pessoas há uma com algum tipo de deficiência. Como não as percebemos se são tantas? É que evitamos qualquer contato, até um mero olhar. E o fazemos sob a alegação de não incomodar. Mas se ninguém as vê, são invisíveis!
Os seres humanos somos gregários, buscamos o contato social, interagimos com os iguais e por meio deles alcançamos nossas satisfações e prazeres. A invisibilidade é devastadora, pois nega a humanidade inerente a cada um de nós. Muitas pessoas com deficiência tentam este convívio, mas são rejeitadas, discriminadas e desaparecem. Fecham-se no seio familiar ou em pequenos círculos onde são aceitas. Alguns pais impedem que os filhos com deficiência se exponham às atrocidades do mundo, seja para protegê-los, seja para poupar a si mesmos do sofrimento de ver seu ente desprezado. Ao proceder assim, as pessoas com deficiência ficam ainda menos perceptíveis e auxiliam a manter a estrutura que as exclui.
Barreiras físicas, arquitetônicas e atitudinais são importantes na produção desta reclusão. Não percebemos, mas o mundo está todo organizado para aqueles que não possuem deficiências e nos irritamos porque a presença das pessoas com deficiência gera demoras e incômodos. De nossa zona de conforto, criamos estereótipos e preconceitos, e imaginamos ser melhor que fiquem em casa, pois não seriam estorvo para si nem para os outros. Em nossa intolerância, não queremos as pessoas com deficiência nos espaços que ocupamos. Não as queremos em escolas, praças, ônibus, shoppings ou no carnaval! Dizemos que é ruim para elas, mas o que realmente desejamos é que não nos atrapalhem. Este tipo de pensamento é o maior problema. Nossas atitudes são as principais barreiras!
Felizmente, há ideias e ações que caminham na direção oposta. A inclusão defende que todos tenham acesso aos bens sociais, seja a aprendizagem escolar, o uso de gadgets eletrônicos ou expressões culturais como o carnaval. A inclusão e a ocupação dos espaços por pessoas com deficiência são ainda embrionárias. Crianças com síndrome de Down, autismo, deficiências visuais, auditivas e de locomoção, entre outras tantas, ainda geram desconforto às estruturas educacionais. O movimento de levar as pessoas com deficiência à escola começou, mas é impreciso dizer que nossas escolas sejam inclusivas. Em razão do esboço de inclusão que ora temos é cada vez mais comum ver pessoas com deficiências não só em escolas, mas em espaços como shoppings, cinemas e casas de espetáculos.

Estes são passos iniciais, ainda tímidos. Modificar nossa sociedade não ocorrerá naturalmente, os esforços deverão ser cotidianos e será preciso lutar por cada conquista. É necessário que as pessoas com deficiência venham às ruas e se façam ver, mas não cabe imputar a elas toda a responsabilidade. É necessário que adaptemos fisicamente os ambientes, que aprendamos a conviver com a deficiência e que adequemos nossa percepção para compreender essas pessoas no dia a dia dos espaços de convivência. É preciso fazer como a Escola de Samba Maracatu da Favela que defendeu a inclusão no carnaval amapaense e sagrou-se campeã de 2012. Como a Grande Rio que, com o samba “Eu acredito em você! E você?”, falou em superação e levou a deficiência e o rodopio de cadeirantes para o carnaval carioca. Este ano a X9 Paulistana, com um ritmista em cadeira de rodas e amputado de ambos os braços “mandando ver” na percussão, defendeu “um mundo diverso, encantador”! Seremos melhores e o carnaval ficará ainda mais espetacular quando, sob o envolvente samba, o suor brotar na diversidade dos corpos.

Arley José Silveira da Costa
Texto publicado no jornal Tribuna Amapaense (Ano VII, Nº 344, Macapá-AP, 9 a 15 de fevereiro de 2013) e disponibilizado em 15 de fevereiro de 2013 no site http://tribunaamapaense.blogspot.com.br/2013/02/entrelinhas-carnaval-e-diversidade-de.html.

Outros artigos da coluna podem ser acessados em Entrelinhas.

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