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Jogadores invisíveis

A criançada se reúne para jogar futebol. Correria rumo ao campinho. Alvoroço completo, vozes estridentes, sorrisos estampados e a alegria do jogo prestes a acontecer. Os dois mais extrovertidos se definem capitães dos times. Começam as escolhas. Cada menino sendo chamado para um time ou outro. José, Paulo, Tiago e outros tantos são selecionados, até que permanecem apenas dois. Um será escolhido. O outro? Bem, o outro esperará que alguém saia para que possa jogar. A espera pela definição da última vaga é torturante. Em suas cabeças, a angústia de ser preterido, de não estar em time nenhum, de questionar suas próprias habilidades, de se julgar incompetente. Ao longo das escolhas, os olhos dos capitães encontravam a todos, menos a eles, era como se não estivessem ali. Deixados por último, pareciam invisíveis.
Pobres, desempregados, viciados, idosos, doentes, dissidentes, alunos com dificuldades, somos muitos os invisíveis em nossa sociedade. Tantos de nós que não somos vistos, não somos desejados, não somos escolhidos e, por isso, marginais. Termo forte, dirão alguns, como se a opção por uma palavra mais sutil mudasse algo. Não muda! O conceito deriva de estar à margem e significa não estar incluso, não fazer parte do veio, do canal que a todos leva. Os marginais somos os excluídos em qualquer uma das múltiplas atividades que desenvolvemos em nossas vidas, seja no jogo de bola, na conquista e manutenção de um emprego, na escolha ideológica, na sala de aula. Como são muitas as áreas em que atuamos, em algumas delas seremos marginais. Isto vale para todos, mesmo para o mais perfeito, o mais belo, o mais rico de nós.
Por que alguns de nós somos marginalizados, somos expulsos do canal do rio? Aos olhos dos escolhidos a resposta é fácil e vem automática: “Ele não é bom”. Significa dizer que o desempenho do excluído está abaixo da média. A alternativa, portanto, é evidente, basta que o preterido seja como os outros, que se esforce, que seja mais. Simples assim! A isto se denomina responsabilização individual. Impregnados desta ideologia aportamos à pessoa excluída a obrigação de encontrar a saída para a situação em que se encontra.
Mas como sair sozinho da dificuldade? Talvez façamos como o Barão de Münchhausen que, tendo caído em um pântano de areia movediça, conseguiu salvar a si e ao cavalo puxando os próprios cabelos. A situação do barão é inverossímil e rimo-nos dela. Mas curiosamente não enxergamos que cobramos daqueles em condição marginal que puxem os próprios cabelos para que se retirem de seus pântanos pessoais. Para defender nossas posições recorremos a coletâneas de situações que mostram como este ou aquele indivíduo saiu de uma situação difícil por seus próprios méritos. Citamos referências como o filme “À procura da felicidade” em que Chris Gardner (Will Smith) desempregado, despejado, abandonado pela esposa e cuidando de um filho pequeno consegue um estágio numa grande empresa para em seguida se tornar milionário.
Entretanto, para acreditar nisso, precisamos fechar os olhos para alguns elementos importantes. Primeiro, os quase sete bilhões sobre o mundo que somos marginais em vários aspectos de nossas vidas. Será que somos todos ou quase todos incapazes de mudar nossa situação? Segundo, as nuances que podem fazer algo dar errado. Pensemos no filme! O que ocorreria se o dinheiro acabasse antes do final do estágio? Se não encontrasse a última máquina que vendia? Se ficasse em segundo no estágio? Se? Se? Se? São tantas as possibilidades! Terceiro, estamos organizados em espaços de extrema desigualdade e cuja estrutura, inclusive ideológica, objetiva manter cada um exatamente onde está.

Por fim, precisamos atentar que são os processos de exclusão de nossa sociedade que geram os marginais! Nossas estratégias de seleção aumentam o fosso entre os jogadores. O escolhido joga cada vez mais e se torna cada vez melhor. O outro, ao contrário, aumenta suas dificuldades ao permanecer menos em campo. O fosso entre as habilidades dos jogadores, designado como deficiência, será ampliado a cada preterição. Na forma como a sociedade está estruturada, o número de vagas será sempre limitado, sempre teremos excluídos. Necessário pensar alternativas em que a saída não seja individual e em que possamos todos jogar. Precisamos mudar nossa sociedade, ou ficaremos todos a esperar uma nova escolha, uma nova partida, infelizes e invisíveis.

Texto publicado no jornal Tribuna Amapaense (Ano VII, Nº 343, página C4, Macapá-AP, 2 a 8 de fevereiro de 2013) e disponibilizado em 31 de janeiro de 2013 no site http://tribunaamapaense.blogspot.com.br/2013/01/entrelinhas-jogadores-invisiveis.html.
Outros artigos da coluna podem ser acessados em Entrelinhas.
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